quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O cortinado quebra-luz

(Ponto de vista de um cortinado em relação à relação dum casal)
Sou um barómetro do casamento do Manel e da Maria. Acompanho a sua relação à cinco anos e assisti a tudo. Sempre que sou afastado, amassado, encolhido, de modo a entrar luz através da janela do quarto, já sei que não haverá nada a esconder do olhar atento e bisbilhoteiro da vizinha. Mas quando oiço um dos dois dizer: "Fecha o cortinado e deita-te aqui", já sei, está tudo bem. Assisto ao acordar diário de cada um. Uma competição pela utilização abusiva do tempo e espaço da casa de banho. A paixão do casal é proporcional à dimensão da dita divisão. Quando a relação está doce, a casa de banho é enorme e dá para os dois, quando azéda, reduz drasticamente o espaço e só lá cabe um, e aumenta exageradamente o tempo de uso de cada um, enquanto o outro espera.
Sempre que o Sol brilha nesta relação sou bem tratado, quando não, sou puxado com tanto força, que em certa ocasião me arrancaram uma presilha. Felizmente fui salvo pelas mãos mágicas de uma costureira milagrosa, porque se fosse pelo Manel ... disse logo: "Que se lixe o cortinado, os teus papás que são ricos e adoram meter-se na nossa vida, compram-te outro, de certeza!!!".

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Diferentes pontos de vista

  1. Mais um habitual fim de dia para descomprimir no "Bar da Esquina". Já estava na altura de mudarem o forro das almofadas e a alcatifa escura da parede, mas o pessoal já sabe o que eu bebo e, mais importante, sabe que só cá venho para acabar o dia antes de regressar a casa. Sento-me na mesa do costume e observo. - Engraçado, nunca tinha visto aquele personagem. Carapinha loura e fato de xadrez de bombazine em pleno Verão! Whiskyzinho ao balcão! Se vem para o engate, está mal porque só cá estou eu. Afinal até está com sorte ... granda louraça, de livro debaixo do braço. Parece que o dia vai correr bem ao "Carapinhas", com tanto bar e ela foi logo sentar-se ao lado dele. Vamos ter festa...
  2. - O conselho do João Paulo até parece mesmo resultar. Com esta falsa carapinha e este fato xadrez ninguém me reconhece, e assim posso vaguear pelas ruas sem ser abordado por tudo e por todos. Até me permite entrar neste bar para saborear um whisky. De qualquer modo, nem precisava do disfarce, está vazio. Vou sentar-me ao balcão. Este ambiente "british démodé" até me faz lembrar a minha juventude. Olho para o lado e nem acredito ... esta loura deslocada que acabou de se sentar de livro debaixo do braço só pode ser jornalista. Tenho que fugir ...
  3. - Foi o melhor livro da minha vida. Não posso ir para casa. Eu sei que vou ficar a noite toda a chorar, porque ele chegou ao fim. Já sei! Vou entra no primeiro bar que encontar, sentar-me ao balcão, e falar sobre o livro com a primeira pessoa que encontrar. Pode ser mesmo neste bar de esquina, decrépito, taciturno e mal-cheiroso. E que tal um pouco de luz? Ficava bem, não? Parece que não tenho escolha, no balcão só está aquele ... senhor de carapinha. Parece peruca. Lá terá que ser com ele mesmo. Até parece o ... o ... como é que ele se chama?