terça-feira, 28 de novembro de 2017

Um amor de morte

Só por saber que um dia te tive,
Quando morrer, não morrerei.
Será uma morte de quem vive,
O amor que só contigo eu amei.

Um doce vento que na face me beija.
Um fogo que queima meu coração.
No dia em que morrer, alegre seja
Por ser para ti eterna oração.

Nesse momento para sempre saberei
Que no amor somente se sobrevive
Quando morrer, não morrerei,
Só por saber que um dia te tive.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

E vão 18 ...

Tu foste demasiado cedo, nem uma pomba branca
E eu estou aqui com nó de marinheiro na garganta
Eu disse a Deus para te guardar, mas foi tudo tão veloz,
Uns dizem que morreste, eu digo que tu vives em nós.
E por mais que se fale, os sacrifícios são teus,
E quanto ao resto ninguém sabe, infindáveis são os desígnios de Deus.
Eu espero que o céu receba as minhas palavras de revolta,
Não há lágrimas que eu verta, que te possam trazer de volta.
Tantas lições que eu retiro ao recordar
E ver a vida se escapar de ti num último suspiro,
Foi cruel e foi tão cedo,
e ainda encontras forças para nos confortar a todos
e dizer "não tenham medo",
Para termos fé naquele que te fortalece,
E todos juntos em círculo fizemos uma prece,
Pedindo aos anjos para virem fazer morada ao teu redor,
Para te pouparem, te levarem daqui para um lugar melhor.
Uns recordam o teu sorriso, outros o teu feitio,
Ao lembrar de ti apenas choro o que eu contive,
Em conversas contigo eu peço-te que olhes por mim,
E por todos os que rezam e também pensam em ti.
Sei que não querias tristeza, cada lágrima é uma dívida.
Quando eu te vir cobra-me com um choro de alegria.
Uma coisa eu te prometo, sempre que se faça dia,
Não lamento a tua morte, mas celebro a tua vida.
Agora sei que me estás a ouvir,
Entre as estrelas vens me ensinar a sorrir,
Porque agora sei, estás onde és feliz,
Vemo-nos por aí, alguém me diz.



domingo, 28 de fevereiro de 2016

Voltei. Assim espero ...

Quase dois anos passaram da última aparição por estes lados.
Porquê esta ausência? Não sei.
Se a percebo? Não.

Talvez porque foram dois anos de voltas e mais voltas, reviravoltas. Dois anos de coragens, dois anos de medos, dois anos de ... enfim, dois anos. De uma vida a uma velocidade que por vezes nos faz perder aquilo que mais gostamos, nós próprios. Foram dois anos de fins, mas também de princípios. Muitos princípios. Um novo futuro. Uma nova esperança. Um novo orgulho. Um novo ... eu.

E agora 44. Duas cadeiras, como alguém disse, mas nas quais prometo não me sentar. Não quero ver a vida a passar como se de um filme se tratasse, mas sim uma vida em pé, vivida, sentida, aproveitada, como personagem principal, escritor e realizador. Uma vida onde a voz de comando é de quem a vive.

Uma vida transformada num grande sorriso. O meu sorriso. E que o Universo me ajude a que assim seja ... O meu Universo.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Carta Aberta de um Chefe Escoteiro

"Nunca voltes a um local onde foste feliz". Ouvi um dia alguém dizer. Totalmente errado, e provei-o no último fim-de-semana. Acampamento de Páscoa do grupo 250 de Mafra da Associação dos Escoteiros de Portugal, no PNEC, na Costa da Caparica. Sim, o mesmo PNEC onde fui feliz na década de 80 do século passado.
Choros, sorrisos, gargalhadas, abraços. Uma alegria contagiante. Um cansaço tão saudável que descança. Uma felicidade sem limites.
Mas tal fez-me lembrar que nunca tinha agradecido a razão de ser Escoteiro a quem tanta influência nesta minha aventura teve e tem.
Luis Miguel, por me teres mostrado a porta de entrada e apadrinhado. Rui Miguel e Mário Carmo pelos guias que foram. Armando Carlos por ser o "eterno" Chefe Armando. Paulo Franco por teres sido o sábio Chefe e por me teres mostrado recentemente o que é ser um "Chefe com letra grande". Graças a vocês nunca deixarei de ser "Sempre 7".
Mas não posso deixar de agradecer a quem me acolheu nesta nova etapa desta "viagem de sonho". Paulo Valverde por teres sido meu padrinho. Patricia Campaniço por me teres mostrado o que é um grupo maravilhoso de jovens. A toda a chefia do Grupo 250 - Mafra quero agradecer (sem individualizar) o facto de me fazerem sentir um irmão (mais novo, pelo tanto que tenho que aprender). E, acima de tudo, quero agradecer aos maravilhosos jovens elementos da Tribo de Escoteiros do 250, que me aceitam como um deles, que me enchem de orgulho a cada dia, que me fazem desejar um mundo melhor para eles e acreditar num mundo melhor feito por eles. E por tudo isto: CONTIGO QUERO! SER 2 5 0.

sábado, 20 de abril de 2013

EU

Pensando, pela rua acima eu vou,
Ouvindo o que o vento tem para me dizer.
Louco. É o que me dizem, eu sou,
Por decidir com sopros o que fazer.

Por decidir com sopros o que fazer,
À minha vida, já de si complicada.
Vou de tropeções em quedas, sempre a crescer,
Melhor assim do que não fazer nada.

Melhor assim do que não fazer nada,
Criando curvas nesta linha da vida.
Bons momentos, maus momentos, uma molhada,
Aproveitando sempre cada oportunidade surgida.

Aproveitando sempre cada oportunidade surgida,
Sem ter medo nem vergonha de falhar.
Continuando a busca da glória prometida,
Porque ninguém me impedirá de sonhar.

Porque ninguém me impedirá de sonhar,
Nesses breves momentos feliz serei.
Mesmo que no final nada tenha para contar,
O amor incondicional de alguns tenho, eu sei.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Palavras trocadas

Gostava de escrever qualquer coisa hoje. Não ficar calado.
Estou perdido num mundo de palavras com significados trocados.
Quero chamar injustiça à morte, pela injustiça que a morte representa.
Quero chamar morte à saudade, pela morte que a saudade provoca.
Quero chamar saudade às memórias, pela saudade que as memórias me trazem.
Quero chamar memórias ao amor, pelas memórias de um amor antigo.
Quero chamar amor ao pai, pelo amor que um pai me deu.
Eu só gostava de escrever qualquer coisa, e só me ocorre...
que morte de injustiça do amor, continuo a memorizá-lo para sempre.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Lugares perdidos ... encontrados


Existem por aí perdidos alguns lugares por onde passamos, sem os ver, sem os adivinhar. Lugares por vezes encantados por algum pormenor que os torna especiais. Uma fotografia, um aroma, uma capela, uma pessoa, ou até um momento que nos marca.

Boleiros é um desses locais.

A não mais de dez quilómetros da “sagrada” Fátima existe esta pequena localidade onde por milagre se encontra um restaurante. Especial em iguarias e néctares, entre bacalhaus e migas, galos e açordas, mas especialmente especial para mim por outras mais razões. Por coincidência ou talvez não, nas poucas vezes que tive o prazer de lá me encontrar, momentos únicos ficaram-me marcados para sempre na memória.

Mesas a dois, a vinte, ou mais recentemente a dez, com companhias tão importantes que ficarão escritas na história da minha vida.

Faço honra ao Restaurante o Truão, mas acrescento o meu muito obrigado a todos aqueles que já lá partilharam magníficos momentos comigo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Dia a dia na Casa de Saúde

1º A Apresentação
- Eu sou uma pessoa muito prática. Já a minha filha me diz, e ... ham ... e depois quando eu vim de Moçambique ... Prrrr. É mesmo assim...

2º A Amizade
- Amigo. Vais à vila?
- Sim.
- Preciso que me compres cigarros.
- Está bem. De quais?
- Carlsberg Pretos. Dos maiores.
N.A. Eram John Player Special

3º A Intimidade
- Já tirei o bigode - disse orgulhosa a Susana.
- Óptimo. Como?
- Arranquei os pelos um a um.
- Mas isso dói.
- Não porque esfreguei primeiro com gelo.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Mais um dia...

Neste teatro que é a nossa vida,
Fecham-se luzes, levantam-se panos.
Todos juntos, a cada dia uma corrida,
Comédias, dramas, tudo enganos

Sofremos com lágrimas dias cinzentos,
Cantamos risos quando estamos felizes.
Ignoramos alegremente lugares bafientos,
Tratamos tristezas lembrando-nos petizes.

Estes versos não são de grande qualidade.
O cérebro mal-tratado está no fundo.
Mas lá vai o tempo em que a vaidade
Me obrigava a ser o melhor do mundo.

Agora só escrevo para estar ocupado,
Sinto-me feliz nestes breves momentos.
Quando olho com olhos o trabalho acabado,
São brisas transformadas em fortes ventos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Ovo

Sinto-me tão bem aqui, estou dentro dum ovo.
Apesar desta sã insanidade das depressões em que todos nos encontramos, uns mais, outros menos, incluindo eu, não quero sair daqui.
Não quero sair porque aqui me compreendem, porque aqui me acarinham, porque aqui encontrei uma familia de pessoas que me amam.
Porque até aqui reencontrei o maior amor que tenho, e que achava ter perdido para sempre. O amor de alguém que está fora deste ovo mas todos os dias vem confirmamr a energia que ele me dá.
Mas sei que a minha viagem não pode continuar muito mais tempo por aqui, e é ainda mais impensável terminá-la aqui.
Já não me lembro quem sou, já não me lembro para onde ía quando me desviei para aqui entrar.
Tenho medo de sair deste ovo. Tenho medo de perder a sua protecção.
Tenho que voltar para o meu mundo lá fora, aquele mundo que me sugava e cegava. Mas serei eu capaz de o mudar, moldando-o de forma a não me agredir?
Sinto um medo de morte. Preciso tanto de ajuda.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

So fast...

A vida corre à velocidade de um relógio parado, quando esperamos por alguém que sabemos não vai voltar.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Galo e a Galinha

Seis da manhã dum Domingo de vento,
Acordo c’o sacana do galo a cantar
Filho da mãe, já não aguento,
Dou-lhe um biqueiro, ainda o vou matar.

Venho à janela e vejo a galinha,
Motivo de toda aquela confusão,
Afinal o pobre bicho o que tinha
Era um ataque agudo de tesão.

Ele por cima armado em Doutor,
Ela por baixo sem lhe passar bola,
Distrai-se, abre demais o buraco do amor
Acerta-lhe em cheio com um ovo na tola.

Oh minha galdéria já estás a parir,
Comigo, sexo que começa tem de acabar
Pois se pensas que do Je te ficas a rir,
Quem se ajoelhou agora tem que rezar.

E vejo a bicha atirar o bico ao bico,
Uma cena que até me fez arrepiar,
Com isto tudo já eram umas sete e pico,
E o raio do galo, continuava a cantar.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um lugar deliciosamente mágico

Era uma vez um lugar deliciosamente mágico onde todas as manhãs chegavam pouco mais de vinte anjos.
Por vezes, um ou outro diabrete era também aceite de braços abertos, porque todos sabiam que rapidamente se transformaria ele também num anjo.
Tudo isto graças ao carinho e dedicação de meia dúzia de santas e dum santo.
Um lugar de risos contagiantes, choros delicatos, gritos encantados. Um lugar onde o Sol brilhava mais e o céu era sempre azul. Um lugar onde se adivinhava o canto dos pássaros e o perfume das flores. Um lugar onde a felicidade reinava a cada dia.
Parece história mas não é, porque esse lugar existe. E eu conheço-o.
Esse lugar é onde os meus filhos foram e são anjos. Onde deram os primeiros passos, disseram as primeiras palavras. Onde criaram as primeiras amizades. Onde pela primeira vez fora de casa, sentiram o aconchego dum lar.
Sim, porque nesse lugar as crianças sentem-se em casa.
E por poder oferecer aos meus filhos a entrada nesse paraíso, quero agradecer a existência desse lugar deliciosamente mágico.
Obrigado "MARUJOS".
Dedicado à Creche "Os Marujos", em Mafra.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Palavra ou sentimento

Estranho sentimento que arde no meu peito, que me aperta o coração.Estrangula-me, amordaça-me, não me deixa respirar.Turva-me a visão, transporta-me para um mundo sem tempo. Empastelado, lento.Rouba-me a razão, perco o discernimento, abandonam-me os sentidos.Chamam-lhe SAUDADE. Palavra ou sentimento, odeio-a.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Aos que partiram

Aos que partiram
Para um lugar longe de onde não voltarão,
em dias que se cravaram em mim bem fundo.
Cruéis farpas que me dilaceraram o coração,
toldando a negro toda a lógica do mundo.
Choro com a alma o fogo da saudade,
sinto a face rasgada por lágrimas de dôr,
mas não esquecerei a mais pura verdade,
de abraços, carinho, ensinamentos e amor.
Voltaremos a encontrar-nos?
Acredito que sim, mas na verdade não sei.
Continuaremos a amar-nos?
Para todo o sempre, disso nunca duvidarei.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Um mar sem fim

Vejo sempre aquele mar sem fim.
Aquele mar que ao longe, numa linha à qual chamam horizonte,
continua até se perder.
Onde eu próprio me perdi, numa manhã fria de sol quente.
Numa corrente de incertezas que nos leva a desistir de tudo.
Num total não entender do que nos rodeia.
Do valor que tem, do valor que nos dá,
do valor que nos oferece ao existir.
Um baixar de braços numa luta,
que nunca terá um fim.
Como aquele mar que sempre vejo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Senhora do Segundo Andar

No segundo andar do prédio amarelo que fica ao principio do bairro, por trás daquela pequena janela de vidros quadriculados, vive uma velha, muito velha, para lá dos oitenta, que tem por hábito deixar fugir o tempo que lhe resta a observar o que se passa na rua.
Mesmo escondida por trás das cortinas de renda não dispensa o desgastado casaco de malha sobre as costas para a defender dos resfriados e usa sempre o cabelo liso e branco apanhado num perfeito puxo, memórias do seu tempo de bailarina.
Hoje cedo, bem cedo, do lado oposto da rua, um casal de adolescentes encontrou-se. Prontos para ir para a escola, ou talvez não, ainda apaixonados num namoro recente e fresco, trocaram logo um demorado beijo pouco próprio para a falta de privacidade do local, e, aos poucos, a mão direita do rapaz perdeu-se por entre os peitos dos dois. Foi uma cena bonita para quem está preparado para as liberdades dos tempos modernos.
Já a senhora do segundo andar, felizmente foi salva pela vizinha do terceiro, que também tendo assistido a todos os acontecimentos, de imediato desceu as escadas e lhe tocou à campainha. Encontrou-a no chão desmaiada de saudade.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O farol

Colocou as mãos na secretária e empurrou-se para trás. A cadeira ficou à distância suficiente para João Pedro poder desistir dos papéis que estava a ler. Nunca resultava trazer trabalho para casa.
Levantou-se e foi devagar até à janela que preenchia a largura do escritória e que, nascendo a uns quarenta centimetros do chão, se espreguiçava até ao tecto.
Fez o que sempre fazia quando não sabia o que fazer. Olhou o farol.
Lá estava ele uma vez mais à sua espera, nunca o abandonaria. Vigilante, onde o rio e o mar se degladiam numa guerra que nenhum vencerá, com as praias de areia branca e fina a assistirem tranquilamente na outra margem. A luz intermitente que projectava, como o pêndulo de um relógio, lembrava-o que o tempo não parava, mas levou-o para outros tempos.
Recordava sempre com saudade quando, com o pai, velejava rio e mar, como se fossem um só, sempre orientados pelo farol. Ainda ouvia as palavras sábias que o pai repetia, sempre que saiam no barco:
- Nunca percas o farol, para que ele não deixe que te percas.
Sempre viu no pai o seu farol e hoje, enquanto olhava aquela torre solitária rodeada de água, no fim do rio, lembrava-se daquele de quem mais sentia a falta.
De súbito, o suave deslizar da porta a abrir-se acordou-o do seu passado. Por uma estreita nesga a inocência do filho sorria-lhe:
- Pai, vens?

domingo, 25 de abril de 2010

Lição de vida

Dois homens encontram-se numa casa de banho pública. Um mais velho, já nos seu setenta anos, outro mais novo, ainda não chegado aos trinta.
Não se conhecem, nem nunca se conhecerão. A sua relação é menos que efémera, não durará mais de um par de minutos.
Lado a lado, de frente para uma parede, sem desviarem o olhar para não criar qualquer tipo de falsa interpretação acerca da finalidade da sua passagem por aquele local, aliviam para dois mictórios gémeos as necessidades fisiológicas de cada um.
Ao som do agressivo embate dos líquidos contra a louça branca de inferior qualidade, diz o mais velho:
- Agora, pouco mijo, mas quando me dá vontade tenho de vir a correr. É a prosta.
Responde o mais novo:
- Eu ainda sou muito jovem para essas coisas.
Remata o ansião:
- Pois prepare-se. A juventude é a rampa de lançamento para a velhice, meu amigo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Para sempre...

Quando morrer, não morrerei.
Viverei para sempre nos corações daqueles que me contarão com um brilho leve no olhar.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Encontrei Leonor

A mais completa e fiel companhia. Pelo menos achava Jorge quando pensava na sua mulher Marta. Nunca lhe havia ocorrido que podia estar completamente enganado.
Só ao fim de dois anos de enganos percebeu que o seu casamento tinha terminado, tinha morrido. E o principal assassino tinha sido ele, com as suas noites infindáveis de reuniões e o trabalho acima de tudo. A total liberdade ganha a tudo e a todos com o seu poder sem limites era o mais importante. Ganhava poder sobre todos menos sobre os que estavam em casa esquecidos.
Os filhos cresceram, sairam de casa e o fim de tudo o que mais se gosta estava iminente. Marta fartou-se.
Certo dia, manhã de tristezas, Marta caminhava pela rua, quando encontrou Leonor, amiga de infância. Conversaram e perederam o tempo. Aquela Leonor foi um sopro de ar fresco na monotonia diária, e Marta descobriu nela a pessoa que faltava na sua vida. Compreendia-a e aconselhava-a como nenhum homem ou mulher o haviam feito até ali.
Marta via a felicidade de uma familia unida em torno das gargalhadas frescas das crianças ruir, mas, de qualquer modo, os filhos já tinham a mais completa visão da terra que pisavam e a perfeita imagem de família esfumou-se com a ausência de Jorge.
A partida daqueles que mais amamos contraposto com um porto de abrigo sempre pronto a receber-nos, foi o que Marta viu no desmoronar da familia e na aparição de Leonor. E nisso percebeu que as corridas sem fim no corredor sem limites que era a sua história, sem os que lhe eram mais importantes como companhia, tiravam o sentido à sua vida.
Mas Leonor devolvia cor ao mundo de Marta. Viu nela um anjo salvador pelo qual, sem entender como, se apaixonava a cada dia.
Esta relação para além dos limites do imaginável, era o fim de tudo o que mais se gosta, mas o principio de tudo o que mais se adora.
Marta acabou por entender o que lhe aconteceu, Jorge não.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A Centésima

João já não se lembrava dos tempos em que era feio. Ou achava que era. A ausência de auto-estima era total.
Certo dia, contava dezoito anos, dois meses e quinze dias, pelas dez da manhã, quando sentado numa esplanada, braços cruzados e cabisbaixo, aguardava um café que havia pedido.
A empregada, uma jovem com não mais de vinte anos e muita vida por viver, ao chegar com o café, sentou-se junto de João. Sem pedir licença, sem perguntar. A luz do Sol ofuscava João que não conseguia distinguir-lhe muito mais que apenas os contornos; e o monólogo limitou-se a uma simples frase, que João sugou:
- Deixa crescer a barba e serás o homem mais sedutor de todos.
João duvidou que esta frase fosse para si. Olhou em volta e para trás em busca de mais alguém, e quando se preparava para uma rajada de perguntas, a empregada já havia ido.
A partir desse dia, todos os dias, João passava pela mesma esplanada, para o mesmo café. O das dez. E deixou crescer a barba.
Aquela esplanada passou a ser um palco de conquistas. João nada fazia. Não só mulheres, também homens, disputavam a atenção de João. Todos os seus nomes e histórias passou a registar num caderno.
- Sagrado - dizia ele - A minha vida começou, realmente, no dia em que escrevi nele a primeira linha.
Naquela manhã nublada, pouco própria para esplanadas, João não queria deixar de se dirigir ao seu local de culto. No seu caderno, noventa e nove nomes contavam histórias diferentes de gente diferente. A curiosidade pelo centésimo nome corroia João.
Chegou e sentou-se na mesa habitual. Seguro de si, braços esticados e cabeça levantada, pediu um café.
Uma empregada trouxe o café e sentou-se junto a João. A mesma empregada que meses antes havia mudado a sua vida e desaparecido sem deixar rasto.
Com um sorriso estampado no rosto, olhou-o. Olhou-o somente. Com um ar penetrante e acusador, esperou que João dissesse algo, mas não obteve qualquer som da sua boca.
Aquela figura obscura falou-lhe então. Com um sussurro. Em suspiros.
- Posso ser eu a tua centésima conquista? Ou não passarás de noventa e nove?
João olhou para a mulher que se encontrava à sua frente, que não teria menos de oitenta anos de vida muito vivida ... e gelou.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Coisas que perdemos

Tudo aquilo que perdemos são
águas que nos levam a um mar de tristezas.
São caixas de música sem a luminosidade dos sons.
Os fantasmas dum passado que o tempo não trará mais,
tristezas duráveis de um futuro infinito.
A pele escamada por um Sol de Verão,
nos beijos húmidos de lábios secos.
As feridas abertas por uma dôr incurável.
Um dormir acordado com os olhos fechados de vida.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Abril pensando em Março

Mais uma vez chegou Abril e com ele a Primavera. Todos estão felizes; os pássaros e as borboletas voam num bailado jovial em torno das flores que renascem dum Inverno que já lá vai.
Mas com Abril ficou para trás o dia mais desejado do ano. É assim há anos, sempre em Março.
O apartamento é minusculo, mas da mezzanine rústica em madeira, através da parede de vidro que vai do chão ao tecto, a vista da montanha é magnífica. Não consigo disfarçar o sorriso de alegria e nervos, enquanto calço as complicadas botas de aspecto lunar, rígidas e com os seus quatro apertos metálicos.
Começo a sentir o calor do fato térmico e tenho que sair o mais rápido possível para a rua, dentro de casa é insuportável. Ski's às costas, bastões nas mãos, piso a neve que me rodeia. Branca e fofa, parece areia de algodão.
Dirijo-me a uma fila para apanhar um teleférico que me leva ao topo da montanha, e durante a viagem sinto-me como um miúdo no seu primeiro dia de aulas ou um adolescente em casa da namorada, sem os pais por perto.
Chego aos 3200 metros do Aiguille Rouge, o único local onde avistamos os Alpes franceses, italianos e suiços a toda a volta e a vista é deslumbrante. Descubro aqui que o mundo não tem fim e esta imensidão de um branco imaculado faz-me sentir um anjo. Os ski's nos pés estão desejosos de começar a voar. Esqueço tudo. Só penso em mim e na montanha, e nos quilómetros de liberdade, velocidade, adrenalina que me esperam.
Faço-me à primeira pista e sinto o puro aroma a fresco chegar aos pulmões e libertar o cerebro do ano inteiro de trabalho, preocupações, telefones, computadores. Entro na floresta e as árvores que passam por mim a uma velocidade alucinante deixam para trás uma paisagem pintada de verde e branco que me leva novamente à aldeia onde as construções de madeira imperam. Sinto-me cansado e feliz. Com uns ski's nos pés sou dono das pistas, da montanha, do mundo.
Em Abril a neve começou a derreter. Montanha abaixo como as minhas lágrimas, e a saudade aperta no coração.
Fica a esperança de no próximo ano chegar novamente o dia mais desejado do ano. É assim hà anos, sempre em Março.
Publicado na "Agenda do Eu 2010"

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Não tinha a certeza de estar vivo

Não tinha a certeza de estar vivo. O meu corpo deixou de reagir ao que me rodeava. Toda aquela multidão me era indiferente e eu ia passando pelo meio dela. Não sabia o que buscava nem para onde ía, mas a luz nas minhas costas era tão intensa que não a queria enfrentar. Aquele era o único caminho possível. Para além disso, algo me atraía naquela direcção. Reparava que não existiam cheiros, nem frio ou calor, e tudo estava silencioso. uma intensa sensação de vazio no meio daquela multidão sem sentido. Uma multidão sem ninguém, toda branca.
Até que sobressaíu alguém. Finalmente alguém diferente naquela multidão. Todo vestido de preto com um intenso cheiro a ébano, o cheiro que adivinhava ser o da morte. O cheiro de que fugi toda a minha vida. O cheiro do fim. O ser vestido de preto no meio da multidão olhou-me com um sorriso. Na sua mão reconheci a minha medalha com São Miguel Arcanjo, perdida à tantos anos.
Senti os nossos olhos tocarem-se, o meu corpo estremeceu e as nossas almas fundiram-se. Senti que lhe pertencia.
A multidão desapareceu e um enorme relvado verdejante abriu-se na minha frente. A serra no seu esplendor e a liberdade a perder de vista.
Ao longe ouvi-o chamar-me como não o ouvia há dez anos, enquanto corria feliz na minha direcção.
De mão dada ao ser de preto ouvi a sua voz ecoar em mim. Será que ainda existe? Existirá sempre. E eu, existirei?
Era o mais próximo do fim que alguma vez tinha estado, mas acreditei que não dependia de ninguém, senão de mim próprio, a decisão de correr pelo relvado e abraçá-lo como sempre o tinha feito. Bastava atravessar aquele rio gelado donde sabia poder nunca mais sair. Aquele rio que me poderia levar para parte incerta. Que me atraía apesar do medo que me provocava, apesar da velocidade a que corria. Um corredor sem fim que afinal conhecia tão bem e onde sempre me senti seguro. Tão cheio de luz e tão familiar.
Atirei-me a ele mas o meu coração voltou a bater mais forte do que nunca.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

E eu, existirei?

Acordo contorcido. Doi-me o corpo. Tento mexer-me mas embato em algo que não vejo. Pelos lados, por baixo, por cima. Estou rodeado de vidro. O espaço é tão pequeno, tão apertado que não me deixa mudar de posição. Não sei como vim parar dentro desta caixa transparente. Vejo para o exterior, mas acho que quem passa não me consegue ver. Ninguém olha para mim. Como se abrirá esta "coisa"? Falta-me o ar. Tenho que respirar devagar. Se aqui entrei, daqui sairei. Não sei como abrir "isto", mas irei descobrir. Começo a sentir calor. Acho que estou a transpirar.
- Por favor, tirem-me daqui!!!
Ninguém me ouve. Não sei para onde irão todos, mas parece que ninguém me vê aqui.
Será que esta caixa comigo dentro existe? E eu, existirei?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Aquele beijo...


João e Marta eram dois adolescentes como tantos outros. Apaixonados pela vida, apaixonados pelos amigos, apaixonados pelo que os rodeava. Mas, mais do que tudo isso, apaixonados um pelo outro, apesar de não saberem como nem perceberem porquê.
Estavam sempre juntos e só assim se sentiam bem. João longe dos jogos de futebol e das provas de masculinidade entre os rapazes e Marta longe das rodas de sussuros e risos entre as raparigas.
Longe de tudo o que seria normal nas suas idades, mas também longe de assumirem um namoro do qual ambos tinham medo de dar o primeiro passo. Ambos receavam uma improvável mas possivel rejeição.
Até aquele dia, num banco de jardim. Sentados lado a lado, alheios ao mundo que os rodeava. Só os dois e mais ninguém. Em silêncio.
João reuniu toda a coragem que conseguiu e, muito ao de leve, pousou a sua mão sobre a de Marta. Sentiu quanto macia era a sua pele. A pele de um anjo.
Olharam-se e os seus rostos aproximaram-se. Fecharam os olhos e os seus sonhos tornaram-se realidade.
Os seus lábios tocaram-se, os seus corpos estremeceram e as suas almas fundiram-se. Num vermelho intenso. Vermelho fogo. Vermelho céu. Vermelho céu em fogo. Um vermelho só possível devido às imensas ondas de paixão. Um vermelho do sangue que lhes corria pelas veias a uma velocidade alucinante, inebriante. Um vermelho a tocar a loucura, a roçar a insanidade. João e Marta puderam senti-lo. Puderam vivê-lo. Numa felicidade sem limites.
E ao final dum tempo sem tempo porque o tempo parou, separaram-se num abraço apertado.
João olhou Marta, e percebeu na sua face o corar de quem não conseguia mais esconder os seus sentimentos, as suas emoções, a sua paixão. E amou-a como nunca.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O cortinado quebra-luz

(Ponto de vista de um cortinado em relação à relação dum casal)
Sou um barómetro do casamento do Manel e da Maria. Acompanho a sua relação à cinco anos e assisti a tudo. Sempre que sou afastado, amassado, encolhido, de modo a entrar luz através da janela do quarto, já sei que não haverá nada a esconder do olhar atento e bisbilhoteiro da vizinha. Mas quando oiço um dos dois dizer: "Fecha o cortinado e deita-te aqui", já sei, está tudo bem. Assisto ao acordar diário de cada um. Uma competição pela utilização abusiva do tempo e espaço da casa de banho. A paixão do casal é proporcional à dimensão da dita divisão. Quando a relação está doce, a casa de banho é enorme e dá para os dois, quando azéda, reduz drasticamente o espaço e só lá cabe um, e aumenta exageradamente o tempo de uso de cada um, enquanto o outro espera.
Sempre que o Sol brilha nesta relação sou bem tratado, quando não, sou puxado com tanto força, que em certa ocasião me arrancaram uma presilha. Felizmente fui salvo pelas mãos mágicas de uma costureira milagrosa, porque se fosse pelo Manel ... disse logo: "Que se lixe o cortinado, os teus papás que são ricos e adoram meter-se na nossa vida, compram-te outro, de certeza!!!".

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Diferentes pontos de vista

  1. Mais um habitual fim de dia para descomprimir no "Bar da Esquina". Já estava na altura de mudarem o forro das almofadas e a alcatifa escura da parede, mas o pessoal já sabe o que eu bebo e, mais importante, sabe que só cá venho para acabar o dia antes de regressar a casa. Sento-me na mesa do costume e observo. - Engraçado, nunca tinha visto aquele personagem. Carapinha loura e fato de xadrez de bombazine em pleno Verão! Whiskyzinho ao balcão! Se vem para o engate, está mal porque só cá estou eu. Afinal até está com sorte ... granda louraça, de livro debaixo do braço. Parece que o dia vai correr bem ao "Carapinhas", com tanto bar e ela foi logo sentar-se ao lado dele. Vamos ter festa...
  2. - O conselho do João Paulo até parece mesmo resultar. Com esta falsa carapinha e este fato xadrez ninguém me reconhece, e assim posso vaguear pelas ruas sem ser abordado por tudo e por todos. Até me permite entrar neste bar para saborear um whisky. De qualquer modo, nem precisava do disfarce, está vazio. Vou sentar-me ao balcão. Este ambiente "british démodé" até me faz lembrar a minha juventude. Olho para o lado e nem acredito ... esta loura deslocada que acabou de se sentar de livro debaixo do braço só pode ser jornalista. Tenho que fugir ...
  3. - Foi o melhor livro da minha vida. Não posso ir para casa. Eu sei que vou ficar a noite toda a chorar, porque ele chegou ao fim. Já sei! Vou entra no primeiro bar que encontar, sentar-me ao balcão, e falar sobre o livro com a primeira pessoa que encontrar. Pode ser mesmo neste bar de esquina, decrépito, taciturno e mal-cheiroso. E que tal um pouco de luz? Ficava bem, não? Parece que não tenho escolha, no balcão só está aquele ... senhor de carapinha. Parece peruca. Lá terá que ser com ele mesmo. Até parece o ... o ... como é que ele se chama?

domingo, 23 de agosto de 2009

Vamos à terra?

- Bem que podias ir neste Verão lá à terra. Agora já se pode ir naquele comboio que parece o metro, mas anda à superfície. Ainda por cima dizem que é expresso directo. Acho que só pára em três ou quatro estações.
- Para mim não. Apesar de tudo gosto mais de ir de autocarro.
- Mas o autocarro não pára até lá. E se queres satisfazer alguma necessidade?
- Faço antes de sair!!! E os comboios têm muitos acidentes.
- Oh menina, isso são os aviões. Como é que os comboios têm acidentes se andam agarrados aos carris?
- Isso não sei, mas olha que li num jornal que na semana passada virou-se um comboio na India. Dizem que morreram centenas de pessoas, e eu até acho que devem ter sido mais. Eles nunca nos contam tudo. Devem mas é ter sido umas dezenas.
- Isso é lá na India. Não devem ter carris de jeito. Se calhar ainda são os que o Vasco da Gama lá deixou quando os descobriu. Mas se não gostas de andar de comboio, porque não pedes ao teu sobrinho que te vá lá levar. Ele até comprou agora aquele carro, que veio da Alemanha.
- Já lhe falei nisso, mas ele disse-me que o carro é daqueles modernos que anda a gás. Para lá ainda vai, mas depois lá na terra não há gás e não dá para ele voltar.
- Ai que mentira!!! Não há gás ... então como é que se aquece a água dos banhos?
- Olha, não sei. Foi o que ele me disse.
- Ele desde que se juntou com aquela cozovar, nunca mais foi para ninguém. Mas ela é que a sabe toda...
- Ela não é cozovar, é romena.
- É igual, são tudo países da antiga Rússia.
- Ela até é boa rapariga ...
- Se tu achas ... vai ficar-lhe com o dinheirinho todo. Oh se vai. Ouve o que te digo.
- Deixa-os lá, que até parecem felizes.
- Tu é que sabes. Olha, na próxima semana vou à terra, mais o meu Arnaldo. Vamos de carro, que ainda é a melhor maneira, e o meu Arnaldo quer mostrar o carro novo lá aos primos. Se quiseres vir connosco...
- Olha que pena, não sabia. Já comprei bilhete no comboio.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Um dia de cada vez

Paro.
O mar entra em mim no momento em que o Sol toca na fresca linha do horizonte. Nesse mágico e hipnotizante momento em que o dia se transforma em noite.
A calma invade-me. Tranquilizo-me.
Nasce em mim a esperança para um novo dia que virá. Melhor certamente. Acredito.
Sinto nos lábios um sorriso optimista.
Sigo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A naturalidade das crianças

Olha-me do seu alto metro e quinze e pergunta-me, desejosa de melhor entender o mundo: "Sabes escrever?". Fico na duvida em relação à pergunta. Este "sabes escrever" não deve ser a conjugação de letras que formam palavras nem a conjugação de palavras que formam frases; calculo que seja algo mais do que isso. Interpreto este "sabes escrever" como a duvida se conseguirei escrever uma historia com principio, meio e fim, capaz de cativar um leitor, enfeitiçà-lo até desejar nada mais que não seja saber o final. Mas serà aue passa por uma mente de seis anos tal questão? Na duvida, defendo-me com outra pergunta: "Talvez, porqu^e?" Sou surpreendido com a mais luminosa resposta: "Para escreveres: Sou o melhor pai do Mundo".

A naturalidade das crianças é perfeita...

Escrito em teclado àrabe

sábado, 11 de julho de 2009

Paciência ... um dia ela vai embora

(Todos nós conhecemos uma pessoa que não suportamos)

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquela gorda
Oh meus amigos, paciência
Pelo menos, pode ser que não morda.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquele cheiro
Oh meus amigos, paciência
Nem vocês, nem o mundo inteiro.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquela voz
Oh meus amigos, paciência
Ela também sofre, nos momentos a sós.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquela persistência
Oh meus amigos, paciência
Será estudada um dia pela ciência.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquela estupidez
Oh meus amigos, paciência
Perderá um dia aquela altivez.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquela presença
Oh meus amigos, paciência
Ela terá a sua sentença.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquele feitio
Oh meus amigos, paciência
Mandem-na “Pr’á puta que a pariu”.

Personagens - Pepa

Pepa cheira mal. Na sua meninice ganhou uma fobia ao banho, que partilhava com o seu gato Tobias, homossexual assumido, mas único amigo (porque ninguém suportava o seu mau génio), com quem tinha discussões filosóficas, e sempre levava a melhor.
No dia do seu vigésimo segundo aniversário, Tobias morreu, e Pepa prometeu, em sua memória, não mais entrar numa banheira, poliban ou chuveiro. A higiene diária ficaria limitada a umas pingas e umas lambidelas.
Três anos mais tarde Pepa conheceu Toni, e ninguém conseguiu demovê-la (como sempre) da teoria que este era Tobias regressado do lado de lá da morte. Também Toni era homossexual, também Toni a ouvia. E conseguiu convencê-lo, com a persistência habitual, que segundo todas as regras e leis, deviam casar. Assim foi.
Mais tarde descobriu que estava errada. Toni não era Tobias. Ao contrário do gato, que bufafa assanhado (assustado, mas esta atitude Pepa interpretava como um sinal de prazer), Toni não tinha qualquer tipo de reação quando Pepa dançava semi-nua, dizendo: “Sou bela, não sou?”
E então tomou uma decisão com duplo objectivo; atazanaria a vida de todos os que a rodeiam, com o primeiro objectivo de se vingar de Toni e da humanidade, e com o segundo objectivo de encontrar o seu Tobias ressuscitado. Aquele que a ouvia, e sobre quem ela sempre levava a melhor.
Estudiosos na área das Relações Humanas de Lisboa e Madrid, assessorados por entendidos vindos de Itália e acompanhados por um especialista de Coimbra, com vasta experiência ganha na Venezuela, dedicaram-se a tentar entender Pepa. Em vão.
Com o seu odor insuportável, o seu mau feitio anestesiante e a sua falta de inteligência crescente, feia e mal arranjada, Pepa continua a busca do seu Santo Graal, tentando passar por cima de tudo e de todos.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Personagens - Milena

Milena podia ser uma publicidade móvel à Circunferência. Toda ela é redonda.
Uma cabeça de melancia, com uma carapinha loura, cheia de caracóis tipo séc. XVIII, e um constante sorriso que lhe transforma os lábios numa meia-lua, dão-lhe um ar jovial.
No seu peito, todo ele um círculo, sobressaem dois seios de dimensões consideráveis, também eles exageradamente redondos, onde se destacam uns enormes mamilos circulares, sempre salientes nas suas justas vestes.
O ventre, mais uma circunferência. Frequentemente, Milena ganha uma injusta prioridade em filas de espera, graças a este falso estado de gravidez permanente.
Abaixo da cintura, quando vista de costas, mais duas circunferências, balofas, gelatinosas, insufladas. Um assento verdadeiramente almofadado.
No final de cada pé redondo, cinco dedos redondos, com uma unhas pintadas de um vermelho coloridamente redondo.
Milena, de nascença chamada Maria Helena Bolas, ama-se a ela própria, porém, odeia o seu nome. "É nome de gorda!" - diz com uma voz arredondada.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Personagens - D. Mirtes

D. Mirtes sabia ser feia, mas não se importava. Os seus milhões faziam-na linda aos olhos de todos aqueles que ela sempre havia desejado. Porém, o pior de D. Mirtes não se adivinhava. Escondido debaixo da sua roupa interior, estava um cheiro nauseabundo saido da sua cova do amor. Um odor amarelo quente arrepiante, mas que provocava em todos os homens um efeito altamente afrodisíaco. Completamente desmaiante. Exclusivo de D. Mirtes.

Já poucos se lembravam da jovem de bigode e cabelo desgrenhado, com uma saia de ganga farripada, uma camisa cor-de-laranja com cornocópias liláses e roxas e umas sapatilhas de lona com um buraco na sola, que um dia havia partido da aldeia de São Torentino, lá para os lados serranos de Belmonte. Num lugar onde o gélido frio de Inverno só consegue ser mais desumanamente violento que o tórrido calor de Verão. Fugiu para tentar a sorte na cidade grande.

O seu primeiro e rico marido foi encontrado morto vitima de ataque cardíaco, três meses depois do casamento, deitado na cama no quarto todo nu, com um sorriso. Diziam não ter aguentado o acto sexual com D. Mirtes.

O seu segundo e riquissimo marido foi encontrado morto vitima de ataque cardíaco, quatro meses depois do casamento, deitado na mesa na cozinha todo nu, com um sorriso. Diziam não ter aguentado o acto sexual com D. Mirtes.

O seu terceiro e riquérrimo marido foi encontrado morto vitima de ataque cardíaco, cinco meses depois do casamento, deitado na espreguiçadeira na piscina todo nu, com um sorriso. D. Mirtes, chorosa, dizia: - O meu amor só me deu oito!?! Diziam não perceber porque tinha morrido o coitado.

E assim D. Mirtes continua, quem sabe bem próxima do caro leitor, em busca do seu quarto marido ...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sou vosso

Plantei-me na eternidade
Com um suave aroma a céu
Para que todos pudessem ter
Um pedaço da minha alma.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Deve ser tão bom estar apaixonado ... durante 30 anos

Luis e Ângela são primos e estão casados. Já lá vão trinta anos. Mais coisa menos coisa. Os pais de Luis são primos e estão casados. Os avós paternos de Luis eram primos e estavam casados.
Aos 6 anos de idade Luis perguntou aos pais:
- Quem são as minhas primas?
Quando aos 18 anunciaram o seu casamento, muitos disseram que simplesmente seguiam a tradição da familia, que aquela aventura não tinha futuro, que ia durar um ano ou dois. Estavam redondamente enganados. O Luis e a Ângela continuam casadíssimos. Continuam a passear ao fim de semana de mão dada. Continuam a ser o par mais activo das aulas de dança que não falham. Continuam a mimar o Pedro (já com 25 anos). Enfim continuam a estar apaixonados.
Recentemente encontrei o Luis, após um período de um ano sem nos vermos. Foi uma festa com abraços, gritos e apitos. Teria sido igual se tivessemos estado juntos no dia anterior. Ele é assim.
Após uma breve troca de conversa perguntei-lhe pela Ângela. Luis simplesmente respondeu:
- Está boa. Cada vez mais boa.
Parabéns Luis e Ângela. Envelheçam assim.

sábado, 25 de abril de 2009

Tanto calor faz mal à cachola

Zé e Manel descansavam debaixo de uma azinheira, aproveitando deliciados cada pequeno segundo de brisa que por eles passava naquela tarde sufocante de Verão.
Zé olhava para o céu azul, enquanto Manel olhava para dentro.
- Vem lá uma nuvem – disse Zé.
- Diz-lhe que eu não estou – respondeu Manel. Não quero ser incomodado.
- Nada disso. Uma nuvem. Daquelas tipo “algodão doce”.
- Então come-a.
- Acorda Manel. Uma nuvem cinzenta num céu azul. Sabes o que costuma significar?
- Humm. Não me ocorre.
- Não precisas correr porque não é para já, mas vai chover.
- Vai tu!!!
- Onde?
- Não sei. Onde tu quiseres. Donde vem mesmo a nuvem? – Perguntou Manel, enquanto abria metade do olho esquerdo. Sim, porque abrir os olhos ao mesmo tempo, enquanto se descansa debaixo duma azinheira, numa tarde sufocante de Verão, pode ser um esforço sobre-humano.
- Dali. Dos lados da do Tio Tóino – respondeu Zé, sem perceber para onde levava a conversa.
- Então não te incomodes. Vai pelo que eu te digo…
- E o caminho é bom? Esse pelo que tu me dizes?
- Garantido – respondeu Manel, só para não ficar calado, porque lhe pareceu má educação.
Passaram 10 minutos e Zé perguntou:
- E o que tu me dizes?
- Que vás. Mas depois volta que aqui está bom.
- Então vou. Até mais.
E Manel aproveitou para descansar…

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Confissões de um cabrício

Sou um cabrício, verdade que sou. Mas não sou um cabrício qualquer. Posso mesmo dizer que sou o maior cabrício de todos os cabrícios. Saio para a rua todas as manhãs em busca de uma pipoca desprevenida e não demora mais de 5 minutos a descobrir aquela que me cairá no colo. E não deixo que seja uma qualquer. Para mim, o “Rei dos Cabrícios”, só uma pombinha atangerinada serve. Olho-as com o meu ar cabriciado, deixo escapar discretamente o meu melhor sorriso, e … elas ficam logo embainhadas por mim. São todas iguais.
Todas, excepto uma. A única que simulou cair no meu cabriciamento, engalfinhando-me de um modo maravilhosamente espectacular. Segredou-me ao pavilhão acústico, num tom “cantar de sereia”, a mais deliciosa palavra que ouvi até hoje.
- Pretendo-te.
Naveguei nas ondas daquele som, para me espraiar no leito daquela que, mais tarde descobriria, era (quase) tão cabrícia como eu.

sábado, 18 de abril de 2009

...

Escrevi com o teu aroma o meu nome nas nuvens,
Só assim não esquecerei que sou um narcisista apaixonado.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Intelectuais ... do peixe

Chegou ao bar da Estação de Comboios, para um café da manhã, quando foi absorvido pela conversa dos três “intelectuais” presentes.
O mais velho: Nam. Hás-de reparar que todos os peixes têm escamas.
O mais novo: Excepto o choco e a lula…
O mais velho: Mas isso não são bem peixes. Agora nem me estou a lembrar bem o que são.
A senhora: São moluscos.
O mais velho: Nam. Crustáceos.
O mais novo: E o golfinho e o tubarão?
O mais velho: Oh pá! Isso são mamíferos!!!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Paternidade

Certo dia uma filha olhou o pai no meio de uma qualquer brincadeira e, sem que ninguém pedisse, sem nenhum interesse associado, com uma sinceridade só existente nas crianças, disse: “Goto muto ti, pai!”. O brilho no olhar com que pronunciou uma frase tão simples ficou-me na memória para sempre, como um farol que indica o caminho para casa. O caminho da paternidade. Não mais me perderei a partir daquele dia.

Carta da minha Galocha

Meu querido Miguel,
Que saudade. Há quanto tempo…
Lembro-me todos os dias com se fosse hoje, quando eu e a minha irmã andávamos orgulhosamente nos teus pés. As aventuras tipo “Indiana Jones”, os números à moda de “James Bond”. Tantas vezes fomos o Capitão Spock e o Comandante Kirk ou um simples polícia a correr atrás de um qualquer ladrão. Mas nunca te deixámos ficar mal. Até ao dia em que te magoamos os pés, umas nossas primas entraram lá em casa, e nós ficámos esquecidas no “Quarto da Costura”, à espera de um próximo pé do nosso tamanho. Ninguém nos disse que eras o benjamim, e mais nenhum pé havia a seguir ao teu.
Mas passados mais de vinte anos recebemos a notícia. Carolina, não é? Uma filha … Deixa-nos fazê-la feliz com a ti fizemos. Passar os mesmos ribeiros, chutar as mesmas poças, pisar a mesma lama. Tu sabes onde nós estamos. “Quarto da Costura”, armário do meio, lado esquerdo, segunda caixa.

terça-feira, 14 de abril de 2009

OBRIGADO

Antes de colocar neste blog qualquer dos textos que escrevi, sinto a obrigação de publicamente agradecer a uma pessoa (se o próprio me permitir), a um Amigo.
Por conseguir despertar em mim a vontade de passar para o papel tudo o que me vai na alma.
Por conseguir fazer-me entender como escrever aquilo que eu sinto.
Por conseguir guiar-me na melhor forma de brincar com as palavras.
Por conseguir proporcionar-me agradáveis momentos em torno de uma caneta e um papel.
Por tudo isto, e pela simpatia contagiante, OBRIGADO PEDRO SENA-LINO.