quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Um mar sem fim

Vejo sempre aquele mar sem fim.
Aquele mar que ao longe, numa linha à qual chamam horizonte,
continua até se perder.
Onde eu próprio me perdi, numa manhã fria de sol quente.
Numa corrente de incertezas que nos leva a desistir de tudo.
Num total não entender do que nos rodeia.
Do valor que tem, do valor que nos dá,
do valor que nos oferece ao existir.
Um baixar de braços numa luta,
que nunca terá um fim.
Como aquele mar que sempre vejo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Senhora do Segundo Andar

No segundo andar do prédio amarelo que fica ao principio do bairro, por trás daquela pequena janela de vidros quadriculados, vive uma velha, muito velha, para lá dos oitenta, que tem por hábito deixar fugir o tempo que lhe resta a observar o que se passa na rua.
Mesmo escondida por trás das cortinas de renda não dispensa o desgastado casaco de malha sobre as costas para a defender dos resfriados e usa sempre o cabelo liso e branco apanhado num perfeito puxo, memórias do seu tempo de bailarina.
Hoje cedo, bem cedo, do lado oposto da rua, um casal de adolescentes encontrou-se. Prontos para ir para a escola, ou talvez não, ainda apaixonados num namoro recente e fresco, trocaram logo um demorado beijo pouco próprio para a falta de privacidade do local, e, aos poucos, a mão direita do rapaz perdeu-se por entre os peitos dos dois. Foi uma cena bonita para quem está preparado para as liberdades dos tempos modernos.
Já a senhora do segundo andar, felizmente foi salva pela vizinha do terceiro, que também tendo assistido a todos os acontecimentos, de imediato desceu as escadas e lhe tocou à campainha. Encontrou-a no chão desmaiada de saudade.