Colocou as mãos na secretária e empurrou-se para trás. A cadeira ficou à distância suficiente para João Pedro poder desistir dos papéis que estava a ler. Nunca resultava trazer trabalho para casa.
Levantou-se e foi devagar até à janela que preenchia a largura do escritória e que, nascendo a uns quarenta centimetros do chão, se espreguiçava até ao tecto.
Fez o que sempre fazia quando não sabia o que fazer. Olhou o farol.
Lá estava ele uma vez mais à sua espera, nunca o abandonaria. Vigilante, onde o rio e o mar se degladiam numa guerra que nenhum vencerá, com as praias de areia branca e fina a assistirem tranquilamente na outra margem. A luz intermitente que projectava, como o pêndulo de um relógio, lembrava-o que o tempo não parava, mas levou-o para outros tempos.
Recordava sempre com saudade quando, com o pai, velejava rio e mar, como se fossem um só, sempre orientados pelo farol. Ainda ouvia as palavras sábias que o pai repetia, sempre que saiam no barco:
- Nunca percas o farol, para que ele não deixe que te percas.
Sempre viu no pai o seu farol e hoje, enquanto olhava aquela torre solitária rodeada de água, no fim do rio, lembrava-se daquele de quem mais sentia a falta.
De súbito, o suave deslizar da porta a abrir-se acordou-o do seu passado. Por uma estreita nesga a inocência do filho sorria-lhe:
- Pai, vens?