segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Aos que partiram

Aos que partiram
Para um lugar longe de onde não voltarão,
em dias que se cravaram em mim bem fundo.
Cruéis farpas que me dilaceraram o coração,
toldando a negro toda a lógica do mundo.
Choro com a alma o fogo da saudade,
sinto a face rasgada por lágrimas de dôr,
mas não esquecerei a mais pura verdade,
de abraços, carinho, ensinamentos e amor.
Voltaremos a encontrar-nos?
Acredito que sim, mas na verdade não sei.
Continuaremos a amar-nos?
Para todo o sempre, disso nunca duvidarei.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Um mar sem fim

Vejo sempre aquele mar sem fim.
Aquele mar que ao longe, numa linha à qual chamam horizonte,
continua até se perder.
Onde eu próprio me perdi, numa manhã fria de sol quente.
Numa corrente de incertezas que nos leva a desistir de tudo.
Num total não entender do que nos rodeia.
Do valor que tem, do valor que nos dá,
do valor que nos oferece ao existir.
Um baixar de braços numa luta,
que nunca terá um fim.
Como aquele mar que sempre vejo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Senhora do Segundo Andar

No segundo andar do prédio amarelo que fica ao principio do bairro, por trás daquela pequena janela de vidros quadriculados, vive uma velha, muito velha, para lá dos oitenta, que tem por hábito deixar fugir o tempo que lhe resta a observar o que se passa na rua.
Mesmo escondida por trás das cortinas de renda não dispensa o desgastado casaco de malha sobre as costas para a defender dos resfriados e usa sempre o cabelo liso e branco apanhado num perfeito puxo, memórias do seu tempo de bailarina.
Hoje cedo, bem cedo, do lado oposto da rua, um casal de adolescentes encontrou-se. Prontos para ir para a escola, ou talvez não, ainda apaixonados num namoro recente e fresco, trocaram logo um demorado beijo pouco próprio para a falta de privacidade do local, e, aos poucos, a mão direita do rapaz perdeu-se por entre os peitos dos dois. Foi uma cena bonita para quem está preparado para as liberdades dos tempos modernos.
Já a senhora do segundo andar, felizmente foi salva pela vizinha do terceiro, que também tendo assistido a todos os acontecimentos, de imediato desceu as escadas e lhe tocou à campainha. Encontrou-a no chão desmaiada de saudade.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O farol

Colocou as mãos na secretária e empurrou-se para trás. A cadeira ficou à distância suficiente para João Pedro poder desistir dos papéis que estava a ler. Nunca resultava trazer trabalho para casa.
Levantou-se e foi devagar até à janela que preenchia a largura do escritória e que, nascendo a uns quarenta centimetros do chão, se espreguiçava até ao tecto.
Fez o que sempre fazia quando não sabia o que fazer. Olhou o farol.
Lá estava ele uma vez mais à sua espera, nunca o abandonaria. Vigilante, onde o rio e o mar se degladiam numa guerra que nenhum vencerá, com as praias de areia branca e fina a assistirem tranquilamente na outra margem. A luz intermitente que projectava, como o pêndulo de um relógio, lembrava-o que o tempo não parava, mas levou-o para outros tempos.
Recordava sempre com saudade quando, com o pai, velejava rio e mar, como se fossem um só, sempre orientados pelo farol. Ainda ouvia as palavras sábias que o pai repetia, sempre que saiam no barco:
- Nunca percas o farol, para que ele não deixe que te percas.
Sempre viu no pai o seu farol e hoje, enquanto olhava aquela torre solitária rodeada de água, no fim do rio, lembrava-se daquele de quem mais sentia a falta.
De súbito, o suave deslizar da porta a abrir-se acordou-o do seu passado. Por uma estreita nesga a inocência do filho sorria-lhe:
- Pai, vens?

domingo, 25 de abril de 2010

Lição de vida

Dois homens encontram-se numa casa de banho pública. Um mais velho, já nos seu setenta anos, outro mais novo, ainda não chegado aos trinta.
Não se conhecem, nem nunca se conhecerão. A sua relação é menos que efémera, não durará mais de um par de minutos.
Lado a lado, de frente para uma parede, sem desviarem o olhar para não criar qualquer tipo de falsa interpretação acerca da finalidade da sua passagem por aquele local, aliviam para dois mictórios gémeos as necessidades fisiológicas de cada um.
Ao som do agressivo embate dos líquidos contra a louça branca de inferior qualidade, diz o mais velho:
- Agora, pouco mijo, mas quando me dá vontade tenho de vir a correr. É a prosta.
Responde o mais novo:
- Eu ainda sou muito jovem para essas coisas.
Remata o ansião:
- Pois prepare-se. A juventude é a rampa de lançamento para a velhice, meu amigo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Para sempre...

Quando morrer, não morrerei.
Viverei para sempre nos corações daqueles que me contarão com um brilho leve no olhar.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Encontrei Leonor

A mais completa e fiel companhia. Pelo menos achava Jorge quando pensava na sua mulher Marta. Nunca lhe havia ocorrido que podia estar completamente enganado.
Só ao fim de dois anos de enganos percebeu que o seu casamento tinha terminado, tinha morrido. E o principal assassino tinha sido ele, com as suas noites infindáveis de reuniões e o trabalho acima de tudo. A total liberdade ganha a tudo e a todos com o seu poder sem limites era o mais importante. Ganhava poder sobre todos menos sobre os que estavam em casa esquecidos.
Os filhos cresceram, sairam de casa e o fim de tudo o que mais se gosta estava iminente. Marta fartou-se.
Certo dia, manhã de tristezas, Marta caminhava pela rua, quando encontrou Leonor, amiga de infância. Conversaram e perederam o tempo. Aquela Leonor foi um sopro de ar fresco na monotonia diária, e Marta descobriu nela a pessoa que faltava na sua vida. Compreendia-a e aconselhava-a como nenhum homem ou mulher o haviam feito até ali.
Marta via a felicidade de uma familia unida em torno das gargalhadas frescas das crianças ruir, mas, de qualquer modo, os filhos já tinham a mais completa visão da terra que pisavam e a perfeita imagem de família esfumou-se com a ausência de Jorge.
A partida daqueles que mais amamos contraposto com um porto de abrigo sempre pronto a receber-nos, foi o que Marta viu no desmoronar da familia e na aparição de Leonor. E nisso percebeu que as corridas sem fim no corredor sem limites que era a sua história, sem os que lhe eram mais importantes como companhia, tiravam o sentido à sua vida.
Mas Leonor devolvia cor ao mundo de Marta. Viu nela um anjo salvador pelo qual, sem entender como, se apaixonava a cada dia.
Esta relação para além dos limites do imaginável, era o fim de tudo o que mais se gosta, mas o principio de tudo o que mais se adora.
Marta acabou por entender o que lhe aconteceu, Jorge não.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A Centésima

João já não se lembrava dos tempos em que era feio. Ou achava que era. A ausência de auto-estima era total.
Certo dia, contava dezoito anos, dois meses e quinze dias, pelas dez da manhã, quando sentado numa esplanada, braços cruzados e cabisbaixo, aguardava um café que havia pedido.
A empregada, uma jovem com não mais de vinte anos e muita vida por viver, ao chegar com o café, sentou-se junto de João. Sem pedir licença, sem perguntar. A luz do Sol ofuscava João que não conseguia distinguir-lhe muito mais que apenas os contornos; e o monólogo limitou-se a uma simples frase, que João sugou:
- Deixa crescer a barba e serás o homem mais sedutor de todos.
João duvidou que esta frase fosse para si. Olhou em volta e para trás em busca de mais alguém, e quando se preparava para uma rajada de perguntas, a empregada já havia ido.
A partir desse dia, todos os dias, João passava pela mesma esplanada, para o mesmo café. O das dez. E deixou crescer a barba.
Aquela esplanada passou a ser um palco de conquistas. João nada fazia. Não só mulheres, também homens, disputavam a atenção de João. Todos os seus nomes e histórias passou a registar num caderno.
- Sagrado - dizia ele - A minha vida começou, realmente, no dia em que escrevi nele a primeira linha.
Naquela manhã nublada, pouco própria para esplanadas, João não queria deixar de se dirigir ao seu local de culto. No seu caderno, noventa e nove nomes contavam histórias diferentes de gente diferente. A curiosidade pelo centésimo nome corroia João.
Chegou e sentou-se na mesa habitual. Seguro de si, braços esticados e cabeça levantada, pediu um café.
Uma empregada trouxe o café e sentou-se junto a João. A mesma empregada que meses antes havia mudado a sua vida e desaparecido sem deixar rasto.
Com um sorriso estampado no rosto, olhou-o. Olhou-o somente. Com um ar penetrante e acusador, esperou que João dissesse algo, mas não obteve qualquer som da sua boca.
Aquela figura obscura falou-lhe então. Com um sussurro. Em suspiros.
- Posso ser eu a tua centésima conquista? Ou não passarás de noventa e nove?
João olhou para a mulher que se encontrava à sua frente, que não teria menos de oitenta anos de vida muito vivida ... e gelou.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Coisas que perdemos

Tudo aquilo que perdemos são
águas que nos levam a um mar de tristezas.
São caixas de música sem a luminosidade dos sons.
Os fantasmas dum passado que o tempo não trará mais,
tristezas duráveis de um futuro infinito.
A pele escamada por um Sol de Verão,
nos beijos húmidos de lábios secos.
As feridas abertas por uma dôr incurável.
Um dormir acordado com os olhos fechados de vida.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Abril pensando em Março

Mais uma vez chegou Abril e com ele a Primavera. Todos estão felizes; os pássaros e as borboletas voam num bailado jovial em torno das flores que renascem dum Inverno que já lá vai.
Mas com Abril ficou para trás o dia mais desejado do ano. É assim há anos, sempre em Março.
O apartamento é minusculo, mas da mezzanine rústica em madeira, através da parede de vidro que vai do chão ao tecto, a vista da montanha é magnífica. Não consigo disfarçar o sorriso de alegria e nervos, enquanto calço as complicadas botas de aspecto lunar, rígidas e com os seus quatro apertos metálicos.
Começo a sentir o calor do fato térmico e tenho que sair o mais rápido possível para a rua, dentro de casa é insuportável. Ski's às costas, bastões nas mãos, piso a neve que me rodeia. Branca e fofa, parece areia de algodão.
Dirijo-me a uma fila para apanhar um teleférico que me leva ao topo da montanha, e durante a viagem sinto-me como um miúdo no seu primeiro dia de aulas ou um adolescente em casa da namorada, sem os pais por perto.
Chego aos 3200 metros do Aiguille Rouge, o único local onde avistamos os Alpes franceses, italianos e suiços a toda a volta e a vista é deslumbrante. Descubro aqui que o mundo não tem fim e esta imensidão de um branco imaculado faz-me sentir um anjo. Os ski's nos pés estão desejosos de começar a voar. Esqueço tudo. Só penso em mim e na montanha, e nos quilómetros de liberdade, velocidade, adrenalina que me esperam.
Faço-me à primeira pista e sinto o puro aroma a fresco chegar aos pulmões e libertar o cerebro do ano inteiro de trabalho, preocupações, telefones, computadores. Entro na floresta e as árvores que passam por mim a uma velocidade alucinante deixam para trás uma paisagem pintada de verde e branco que me leva novamente à aldeia onde as construções de madeira imperam. Sinto-me cansado e feliz. Com uns ski's nos pés sou dono das pistas, da montanha, do mundo.
Em Abril a neve começou a derreter. Montanha abaixo como as minhas lágrimas, e a saudade aperta no coração.
Fica a esperança de no próximo ano chegar novamente o dia mais desejado do ano. É assim hà anos, sempre em Março.
Publicado na "Agenda do Eu 2010"