sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Não tinha a certeza de estar vivo

Não tinha a certeza de estar vivo. O meu corpo deixou de reagir ao que me rodeava. Toda aquela multidão me era indiferente e eu ia passando pelo meio dela. Não sabia o que buscava nem para onde ía, mas a luz nas minhas costas era tão intensa que não a queria enfrentar. Aquele era o único caminho possível. Para além disso, algo me atraía naquela direcção. Reparava que não existiam cheiros, nem frio ou calor, e tudo estava silencioso. uma intensa sensação de vazio no meio daquela multidão sem sentido. Uma multidão sem ninguém, toda branca.
Até que sobressaíu alguém. Finalmente alguém diferente naquela multidão. Todo vestido de preto com um intenso cheiro a ébano, o cheiro que adivinhava ser o da morte. O cheiro de que fugi toda a minha vida. O cheiro do fim. O ser vestido de preto no meio da multidão olhou-me com um sorriso. Na sua mão reconheci a minha medalha com São Miguel Arcanjo, perdida à tantos anos.
Senti os nossos olhos tocarem-se, o meu corpo estremeceu e as nossas almas fundiram-se. Senti que lhe pertencia.
A multidão desapareceu e um enorme relvado verdejante abriu-se na minha frente. A serra no seu esplendor e a liberdade a perder de vista.
Ao longe ouvi-o chamar-me como não o ouvia há dez anos, enquanto corria feliz na minha direcção.
De mão dada ao ser de preto ouvi a sua voz ecoar em mim. Será que ainda existe? Existirá sempre. E eu, existirei?
Era o mais próximo do fim que alguma vez tinha estado, mas acreditei que não dependia de ninguém, senão de mim próprio, a decisão de correr pelo relvado e abraçá-lo como sempre o tinha feito. Bastava atravessar aquele rio gelado donde sabia poder nunca mais sair. Aquele rio que me poderia levar para parte incerta. Que me atraía apesar do medo que me provocava, apesar da velocidade a que corria. Um corredor sem fim que afinal conhecia tão bem e onde sempre me senti seguro. Tão cheio de luz e tão familiar.
Atirei-me a ele mas o meu coração voltou a bater mais forte do que nunca.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

E eu, existirei?

Acordo contorcido. Doi-me o corpo. Tento mexer-me mas embato em algo que não vejo. Pelos lados, por baixo, por cima. Estou rodeado de vidro. O espaço é tão pequeno, tão apertado que não me deixa mudar de posição. Não sei como vim parar dentro desta caixa transparente. Vejo para o exterior, mas acho que quem passa não me consegue ver. Ninguém olha para mim. Como se abrirá esta "coisa"? Falta-me o ar. Tenho que respirar devagar. Se aqui entrei, daqui sairei. Não sei como abrir "isto", mas irei descobrir. Começo a sentir calor. Acho que estou a transpirar.
- Por favor, tirem-me daqui!!!
Ninguém me ouve. Não sei para onde irão todos, mas parece que ninguém me vê aqui.
Será que esta caixa comigo dentro existe? E eu, existirei?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Aquele beijo...


João e Marta eram dois adolescentes como tantos outros. Apaixonados pela vida, apaixonados pelos amigos, apaixonados pelo que os rodeava. Mas, mais do que tudo isso, apaixonados um pelo outro, apesar de não saberem como nem perceberem porquê.
Estavam sempre juntos e só assim se sentiam bem. João longe dos jogos de futebol e das provas de masculinidade entre os rapazes e Marta longe das rodas de sussuros e risos entre as raparigas.
Longe de tudo o que seria normal nas suas idades, mas também longe de assumirem um namoro do qual ambos tinham medo de dar o primeiro passo. Ambos receavam uma improvável mas possivel rejeição.
Até aquele dia, num banco de jardim. Sentados lado a lado, alheios ao mundo que os rodeava. Só os dois e mais ninguém. Em silêncio.
João reuniu toda a coragem que conseguiu e, muito ao de leve, pousou a sua mão sobre a de Marta. Sentiu quanto macia era a sua pele. A pele de um anjo.
Olharam-se e os seus rostos aproximaram-se. Fecharam os olhos e os seus sonhos tornaram-se realidade.
Os seus lábios tocaram-se, os seus corpos estremeceram e as suas almas fundiram-se. Num vermelho intenso. Vermelho fogo. Vermelho céu. Vermelho céu em fogo. Um vermelho só possível devido às imensas ondas de paixão. Um vermelho do sangue que lhes corria pelas veias a uma velocidade alucinante, inebriante. Um vermelho a tocar a loucura, a roçar a insanidade. João e Marta puderam senti-lo. Puderam vivê-lo. Numa felicidade sem limites.
E ao final dum tempo sem tempo porque o tempo parou, separaram-se num abraço apertado.
João olhou Marta, e percebeu na sua face o corar de quem não conseguia mais esconder os seus sentimentos, as suas emoções, a sua paixão. E amou-a como nunca.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O cortinado quebra-luz

(Ponto de vista de um cortinado em relação à relação dum casal)
Sou um barómetro do casamento do Manel e da Maria. Acompanho a sua relação à cinco anos e assisti a tudo. Sempre que sou afastado, amassado, encolhido, de modo a entrar luz através da janela do quarto, já sei que não haverá nada a esconder do olhar atento e bisbilhoteiro da vizinha. Mas quando oiço um dos dois dizer: "Fecha o cortinado e deita-te aqui", já sei, está tudo bem. Assisto ao acordar diário de cada um. Uma competição pela utilização abusiva do tempo e espaço da casa de banho. A paixão do casal é proporcional à dimensão da dita divisão. Quando a relação está doce, a casa de banho é enorme e dá para os dois, quando azéda, reduz drasticamente o espaço e só lá cabe um, e aumenta exageradamente o tempo de uso de cada um, enquanto o outro espera.
Sempre que o Sol brilha nesta relação sou bem tratado, quando não, sou puxado com tanto força, que em certa ocasião me arrancaram uma presilha. Felizmente fui salvo pelas mãos mágicas de uma costureira milagrosa, porque se fosse pelo Manel ... disse logo: "Que se lixe o cortinado, os teus papás que são ricos e adoram meter-se na nossa vida, compram-te outro, de certeza!!!".

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Diferentes pontos de vista

  1. Mais um habitual fim de dia para descomprimir no "Bar da Esquina". Já estava na altura de mudarem o forro das almofadas e a alcatifa escura da parede, mas o pessoal já sabe o que eu bebo e, mais importante, sabe que só cá venho para acabar o dia antes de regressar a casa. Sento-me na mesa do costume e observo. - Engraçado, nunca tinha visto aquele personagem. Carapinha loura e fato de xadrez de bombazine em pleno Verão! Whiskyzinho ao balcão! Se vem para o engate, está mal porque só cá estou eu. Afinal até está com sorte ... granda louraça, de livro debaixo do braço. Parece que o dia vai correr bem ao "Carapinhas", com tanto bar e ela foi logo sentar-se ao lado dele. Vamos ter festa...
  2. - O conselho do João Paulo até parece mesmo resultar. Com esta falsa carapinha e este fato xadrez ninguém me reconhece, e assim posso vaguear pelas ruas sem ser abordado por tudo e por todos. Até me permite entrar neste bar para saborear um whisky. De qualquer modo, nem precisava do disfarce, está vazio. Vou sentar-me ao balcão. Este ambiente "british démodé" até me faz lembrar a minha juventude. Olho para o lado e nem acredito ... esta loura deslocada que acabou de se sentar de livro debaixo do braço só pode ser jornalista. Tenho que fugir ...
  3. - Foi o melhor livro da minha vida. Não posso ir para casa. Eu sei que vou ficar a noite toda a chorar, porque ele chegou ao fim. Já sei! Vou entra no primeiro bar que encontar, sentar-me ao balcão, e falar sobre o livro com a primeira pessoa que encontrar. Pode ser mesmo neste bar de esquina, decrépito, taciturno e mal-cheiroso. E que tal um pouco de luz? Ficava bem, não? Parece que não tenho escolha, no balcão só está aquele ... senhor de carapinha. Parece peruca. Lá terá que ser com ele mesmo. Até parece o ... o ... como é que ele se chama?

domingo, 23 de agosto de 2009

Vamos à terra?

- Bem que podias ir neste Verão lá à terra. Agora já se pode ir naquele comboio que parece o metro, mas anda à superfície. Ainda por cima dizem que é expresso directo. Acho que só pára em três ou quatro estações.
- Para mim não. Apesar de tudo gosto mais de ir de autocarro.
- Mas o autocarro não pára até lá. E se queres satisfazer alguma necessidade?
- Faço antes de sair!!! E os comboios têm muitos acidentes.
- Oh menina, isso são os aviões. Como é que os comboios têm acidentes se andam agarrados aos carris?
- Isso não sei, mas olha que li num jornal que na semana passada virou-se um comboio na India. Dizem que morreram centenas de pessoas, e eu até acho que devem ter sido mais. Eles nunca nos contam tudo. Devem mas é ter sido umas dezenas.
- Isso é lá na India. Não devem ter carris de jeito. Se calhar ainda são os que o Vasco da Gama lá deixou quando os descobriu. Mas se não gostas de andar de comboio, porque não pedes ao teu sobrinho que te vá lá levar. Ele até comprou agora aquele carro, que veio da Alemanha.
- Já lhe falei nisso, mas ele disse-me que o carro é daqueles modernos que anda a gás. Para lá ainda vai, mas depois lá na terra não há gás e não dá para ele voltar.
- Ai que mentira!!! Não há gás ... então como é que se aquece a água dos banhos?
- Olha, não sei. Foi o que ele me disse.
- Ele desde que se juntou com aquela cozovar, nunca mais foi para ninguém. Mas ela é que a sabe toda...
- Ela não é cozovar, é romena.
- É igual, são tudo países da antiga Rússia.
- Ela até é boa rapariga ...
- Se tu achas ... vai ficar-lhe com o dinheirinho todo. Oh se vai. Ouve o que te digo.
- Deixa-os lá, que até parecem felizes.
- Tu é que sabes. Olha, na próxima semana vou à terra, mais o meu Arnaldo. Vamos de carro, que ainda é a melhor maneira, e o meu Arnaldo quer mostrar o carro novo lá aos primos. Se quiseres vir connosco...
- Olha que pena, não sabia. Já comprei bilhete no comboio.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Um dia de cada vez

Paro.
O mar entra em mim no momento em que o Sol toca na fresca linha do horizonte. Nesse mágico e hipnotizante momento em que o dia se transforma em noite.
A calma invade-me. Tranquilizo-me.
Nasce em mim a esperança para um novo dia que virá. Melhor certamente. Acredito.
Sinto nos lábios um sorriso optimista.
Sigo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A naturalidade das crianças

Olha-me do seu alto metro e quinze e pergunta-me, desejosa de melhor entender o mundo: "Sabes escrever?". Fico na duvida em relação à pergunta. Este "sabes escrever" não deve ser a conjugação de letras que formam palavras nem a conjugação de palavras que formam frases; calculo que seja algo mais do que isso. Interpreto este "sabes escrever" como a duvida se conseguirei escrever uma historia com principio, meio e fim, capaz de cativar um leitor, enfeitiçà-lo até desejar nada mais que não seja saber o final. Mas serà aue passa por uma mente de seis anos tal questão? Na duvida, defendo-me com outra pergunta: "Talvez, porqu^e?" Sou surpreendido com a mais luminosa resposta: "Para escreveres: Sou o melhor pai do Mundo".

A naturalidade das crianças é perfeita...

Escrito em teclado àrabe

sábado, 11 de julho de 2009

Paciência ... um dia ela vai embora

(Todos nós conhecemos uma pessoa que não suportamos)

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquela gorda
Oh meus amigos, paciência
Pelo menos, pode ser que não morda.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquele cheiro
Oh meus amigos, paciência
Nem vocês, nem o mundo inteiro.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquela voz
Oh meus amigos, paciência
Ela também sofre, nos momentos a sós.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquela persistência
Oh meus amigos, paciência
Será estudada um dia pela ciência.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquela estupidez
Oh meus amigos, paciência
Perderá um dia aquela altivez.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquela presença
Oh meus amigos, paciência
Ela terá a sua sentença.

Oh meus amigos, paciência
Ninguém aguenta aquele feitio
Oh meus amigos, paciência
Mandem-na “Pr’á puta que a pariu”.

Personagens - Pepa

Pepa cheira mal. Na sua meninice ganhou uma fobia ao banho, que partilhava com o seu gato Tobias, homossexual assumido, mas único amigo (porque ninguém suportava o seu mau génio), com quem tinha discussões filosóficas, e sempre levava a melhor.
No dia do seu vigésimo segundo aniversário, Tobias morreu, e Pepa prometeu, em sua memória, não mais entrar numa banheira, poliban ou chuveiro. A higiene diária ficaria limitada a umas pingas e umas lambidelas.
Três anos mais tarde Pepa conheceu Toni, e ninguém conseguiu demovê-la (como sempre) da teoria que este era Tobias regressado do lado de lá da morte. Também Toni era homossexual, também Toni a ouvia. E conseguiu convencê-lo, com a persistência habitual, que segundo todas as regras e leis, deviam casar. Assim foi.
Mais tarde descobriu que estava errada. Toni não era Tobias. Ao contrário do gato, que bufafa assanhado (assustado, mas esta atitude Pepa interpretava como um sinal de prazer), Toni não tinha qualquer tipo de reação quando Pepa dançava semi-nua, dizendo: “Sou bela, não sou?”
E então tomou uma decisão com duplo objectivo; atazanaria a vida de todos os que a rodeiam, com o primeiro objectivo de se vingar de Toni e da humanidade, e com o segundo objectivo de encontrar o seu Tobias ressuscitado. Aquele que a ouvia, e sobre quem ela sempre levava a melhor.
Estudiosos na área das Relações Humanas de Lisboa e Madrid, assessorados por entendidos vindos de Itália e acompanhados por um especialista de Coimbra, com vasta experiência ganha na Venezuela, dedicaram-se a tentar entender Pepa. Em vão.
Com o seu odor insuportável, o seu mau feitio anestesiante e a sua falta de inteligência crescente, feia e mal arranjada, Pepa continua a busca do seu Santo Graal, tentando passar por cima de tudo e de todos.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Personagens - Milena

Milena podia ser uma publicidade móvel à Circunferência. Toda ela é redonda.
Uma cabeça de melancia, com uma carapinha loura, cheia de caracóis tipo séc. XVIII, e um constante sorriso que lhe transforma os lábios numa meia-lua, dão-lhe um ar jovial.
No seu peito, todo ele um círculo, sobressaem dois seios de dimensões consideráveis, também eles exageradamente redondos, onde se destacam uns enormes mamilos circulares, sempre salientes nas suas justas vestes.
O ventre, mais uma circunferência. Frequentemente, Milena ganha uma injusta prioridade em filas de espera, graças a este falso estado de gravidez permanente.
Abaixo da cintura, quando vista de costas, mais duas circunferências, balofas, gelatinosas, insufladas. Um assento verdadeiramente almofadado.
No final de cada pé redondo, cinco dedos redondos, com uma unhas pintadas de um vermelho coloridamente redondo.
Milena, de nascença chamada Maria Helena Bolas, ama-se a ela própria, porém, odeia o seu nome. "É nome de gorda!" - diz com uma voz arredondada.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Personagens - D. Mirtes

D. Mirtes sabia ser feia, mas não se importava. Os seus milhões faziam-na linda aos olhos de todos aqueles que ela sempre havia desejado. Porém, o pior de D. Mirtes não se adivinhava. Escondido debaixo da sua roupa interior, estava um cheiro nauseabundo saido da sua cova do amor. Um odor amarelo quente arrepiante, mas que provocava em todos os homens um efeito altamente afrodisíaco. Completamente desmaiante. Exclusivo de D. Mirtes.

Já poucos se lembravam da jovem de bigode e cabelo desgrenhado, com uma saia de ganga farripada, uma camisa cor-de-laranja com cornocópias liláses e roxas e umas sapatilhas de lona com um buraco na sola, que um dia havia partido da aldeia de São Torentino, lá para os lados serranos de Belmonte. Num lugar onde o gélido frio de Inverno só consegue ser mais desumanamente violento que o tórrido calor de Verão. Fugiu para tentar a sorte na cidade grande.

O seu primeiro e rico marido foi encontrado morto vitima de ataque cardíaco, três meses depois do casamento, deitado na cama no quarto todo nu, com um sorriso. Diziam não ter aguentado o acto sexual com D. Mirtes.

O seu segundo e riquissimo marido foi encontrado morto vitima de ataque cardíaco, quatro meses depois do casamento, deitado na mesa na cozinha todo nu, com um sorriso. Diziam não ter aguentado o acto sexual com D. Mirtes.

O seu terceiro e riquérrimo marido foi encontrado morto vitima de ataque cardíaco, cinco meses depois do casamento, deitado na espreguiçadeira na piscina todo nu, com um sorriso. D. Mirtes, chorosa, dizia: - O meu amor só me deu oito!?! Diziam não perceber porque tinha morrido o coitado.

E assim D. Mirtes continua, quem sabe bem próxima do caro leitor, em busca do seu quarto marido ...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sou vosso

Plantei-me na eternidade
Com um suave aroma a céu
Para que todos pudessem ter
Um pedaço da minha alma.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Deve ser tão bom estar apaixonado ... durante 30 anos

Luis e Ângela são primos e estão casados. Já lá vão trinta anos. Mais coisa menos coisa. Os pais de Luis são primos e estão casados. Os avós paternos de Luis eram primos e estavam casados.
Aos 6 anos de idade Luis perguntou aos pais:
- Quem são as minhas primas?
Quando aos 18 anunciaram o seu casamento, muitos disseram que simplesmente seguiam a tradição da familia, que aquela aventura não tinha futuro, que ia durar um ano ou dois. Estavam redondamente enganados. O Luis e a Ângela continuam casadíssimos. Continuam a passear ao fim de semana de mão dada. Continuam a ser o par mais activo das aulas de dança que não falham. Continuam a mimar o Pedro (já com 25 anos). Enfim continuam a estar apaixonados.
Recentemente encontrei o Luis, após um período de um ano sem nos vermos. Foi uma festa com abraços, gritos e apitos. Teria sido igual se tivessemos estado juntos no dia anterior. Ele é assim.
Após uma breve troca de conversa perguntei-lhe pela Ângela. Luis simplesmente respondeu:
- Está boa. Cada vez mais boa.
Parabéns Luis e Ângela. Envelheçam assim.

sábado, 25 de abril de 2009

Tanto calor faz mal à cachola

Zé e Manel descansavam debaixo de uma azinheira, aproveitando deliciados cada pequeno segundo de brisa que por eles passava naquela tarde sufocante de Verão.
Zé olhava para o céu azul, enquanto Manel olhava para dentro.
- Vem lá uma nuvem – disse Zé.
- Diz-lhe que eu não estou – respondeu Manel. Não quero ser incomodado.
- Nada disso. Uma nuvem. Daquelas tipo “algodão doce”.
- Então come-a.
- Acorda Manel. Uma nuvem cinzenta num céu azul. Sabes o que costuma significar?
- Humm. Não me ocorre.
- Não precisas correr porque não é para já, mas vai chover.
- Vai tu!!!
- Onde?
- Não sei. Onde tu quiseres. Donde vem mesmo a nuvem? – Perguntou Manel, enquanto abria metade do olho esquerdo. Sim, porque abrir os olhos ao mesmo tempo, enquanto se descansa debaixo duma azinheira, numa tarde sufocante de Verão, pode ser um esforço sobre-humano.
- Dali. Dos lados da do Tio Tóino – respondeu Zé, sem perceber para onde levava a conversa.
- Então não te incomodes. Vai pelo que eu te digo…
- E o caminho é bom? Esse pelo que tu me dizes?
- Garantido – respondeu Manel, só para não ficar calado, porque lhe pareceu má educação.
Passaram 10 minutos e Zé perguntou:
- E o que tu me dizes?
- Que vás. Mas depois volta que aqui está bom.
- Então vou. Até mais.
E Manel aproveitou para descansar…

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Confissões de um cabrício

Sou um cabrício, verdade que sou. Mas não sou um cabrício qualquer. Posso mesmo dizer que sou o maior cabrício de todos os cabrícios. Saio para a rua todas as manhãs em busca de uma pipoca desprevenida e não demora mais de 5 minutos a descobrir aquela que me cairá no colo. E não deixo que seja uma qualquer. Para mim, o “Rei dos Cabrícios”, só uma pombinha atangerinada serve. Olho-as com o meu ar cabriciado, deixo escapar discretamente o meu melhor sorriso, e … elas ficam logo embainhadas por mim. São todas iguais.
Todas, excepto uma. A única que simulou cair no meu cabriciamento, engalfinhando-me de um modo maravilhosamente espectacular. Segredou-me ao pavilhão acústico, num tom “cantar de sereia”, a mais deliciosa palavra que ouvi até hoje.
- Pretendo-te.
Naveguei nas ondas daquele som, para me espraiar no leito daquela que, mais tarde descobriria, era (quase) tão cabrícia como eu.

sábado, 18 de abril de 2009

...

Escrevi com o teu aroma o meu nome nas nuvens,
Só assim não esquecerei que sou um narcisista apaixonado.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Intelectuais ... do peixe

Chegou ao bar da Estação de Comboios, para um café da manhã, quando foi absorvido pela conversa dos três “intelectuais” presentes.
O mais velho: Nam. Hás-de reparar que todos os peixes têm escamas.
O mais novo: Excepto o choco e a lula…
O mais velho: Mas isso não são bem peixes. Agora nem me estou a lembrar bem o que são.
A senhora: São moluscos.
O mais velho: Nam. Crustáceos.
O mais novo: E o golfinho e o tubarão?
O mais velho: Oh pá! Isso são mamíferos!!!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Paternidade

Certo dia uma filha olhou o pai no meio de uma qualquer brincadeira e, sem que ninguém pedisse, sem nenhum interesse associado, com uma sinceridade só existente nas crianças, disse: “Goto muto ti, pai!”. O brilho no olhar com que pronunciou uma frase tão simples ficou-me na memória para sempre, como um farol que indica o caminho para casa. O caminho da paternidade. Não mais me perderei a partir daquele dia.

Carta da minha Galocha

Meu querido Miguel,
Que saudade. Há quanto tempo…
Lembro-me todos os dias com se fosse hoje, quando eu e a minha irmã andávamos orgulhosamente nos teus pés. As aventuras tipo “Indiana Jones”, os números à moda de “James Bond”. Tantas vezes fomos o Capitão Spock e o Comandante Kirk ou um simples polícia a correr atrás de um qualquer ladrão. Mas nunca te deixámos ficar mal. Até ao dia em que te magoamos os pés, umas nossas primas entraram lá em casa, e nós ficámos esquecidas no “Quarto da Costura”, à espera de um próximo pé do nosso tamanho. Ninguém nos disse que eras o benjamim, e mais nenhum pé havia a seguir ao teu.
Mas passados mais de vinte anos recebemos a notícia. Carolina, não é? Uma filha … Deixa-nos fazê-la feliz com a ti fizemos. Passar os mesmos ribeiros, chutar as mesmas poças, pisar a mesma lama. Tu sabes onde nós estamos. “Quarto da Costura”, armário do meio, lado esquerdo, segunda caixa.

terça-feira, 14 de abril de 2009

OBRIGADO

Antes de colocar neste blog qualquer dos textos que escrevi, sinto a obrigação de publicamente agradecer a uma pessoa (se o próprio me permitir), a um Amigo.
Por conseguir despertar em mim a vontade de passar para o papel tudo o que me vai na alma.
Por conseguir fazer-me entender como escrever aquilo que eu sinto.
Por conseguir guiar-me na melhor forma de brincar com as palavras.
Por conseguir proporcionar-me agradáveis momentos em torno de uma caneta e um papel.
Por tudo isto, e pela simpatia contagiante, OBRIGADO PEDRO SENA-LINO.