quarta-feira, 24 de março de 2010

A Centésima

João já não se lembrava dos tempos em que era feio. Ou achava que era. A ausência de auto-estima era total.
Certo dia, contava dezoito anos, dois meses e quinze dias, pelas dez da manhã, quando sentado numa esplanada, braços cruzados e cabisbaixo, aguardava um café que havia pedido.
A empregada, uma jovem com não mais de vinte anos e muita vida por viver, ao chegar com o café, sentou-se junto de João. Sem pedir licença, sem perguntar. A luz do Sol ofuscava João que não conseguia distinguir-lhe muito mais que apenas os contornos; e o monólogo limitou-se a uma simples frase, que João sugou:
- Deixa crescer a barba e serás o homem mais sedutor de todos.
João duvidou que esta frase fosse para si. Olhou em volta e para trás em busca de mais alguém, e quando se preparava para uma rajada de perguntas, a empregada já havia ido.
A partir desse dia, todos os dias, João passava pela mesma esplanada, para o mesmo café. O das dez. E deixou crescer a barba.
Aquela esplanada passou a ser um palco de conquistas. João nada fazia. Não só mulheres, também homens, disputavam a atenção de João. Todos os seus nomes e histórias passou a registar num caderno.
- Sagrado - dizia ele - A minha vida começou, realmente, no dia em que escrevi nele a primeira linha.
Naquela manhã nublada, pouco própria para esplanadas, João não queria deixar de se dirigir ao seu local de culto. No seu caderno, noventa e nove nomes contavam histórias diferentes de gente diferente. A curiosidade pelo centésimo nome corroia João.
Chegou e sentou-se na mesa habitual. Seguro de si, braços esticados e cabeça levantada, pediu um café.
Uma empregada trouxe o café e sentou-se junto a João. A mesma empregada que meses antes havia mudado a sua vida e desaparecido sem deixar rasto.
Com um sorriso estampado no rosto, olhou-o. Olhou-o somente. Com um ar penetrante e acusador, esperou que João dissesse algo, mas não obteve qualquer som da sua boca.
Aquela figura obscura falou-lhe então. Com um sussurro. Em suspiros.
- Posso ser eu a tua centésima conquista? Ou não passarás de noventa e nove?
João olhou para a mulher que se encontrava à sua frente, que não teria menos de oitenta anos de vida muito vivida ... e gelou.

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